
Como vimos na primeira parte, a lanterna mágica conquistou grandes pessoas da nossa história desde que saiu da oficina de Huygens. Já no século XIX veremos que a bola de neve toma proporções enormes passando por outros tantos nomes de cientistas até, enfim, se iniciar o cinema.
Um breve resumo da história do cinematógrafo – parte II
por Henrique Marino – crítico e colunista
Criado por volta da mesma época que a fantasmagoria – ao menos numa visão Ocidental -, devo rapidamente citar o panorama. Trata-se de uma pintura que compreende 360º de visão, assim pode-se criar um paralelo entre este estilo de pintura bastante acadêmico com as salas de cinema IMAX, por exemplo. Tempos mais tarde, um filho do panorama muito mais interessante nasce: o diorama. Não se trata de um espetáculo de fortes vínculos com o cinema, mas é muito interessante pelo primor que possuía. Quem viu Uma Noite no Museu deve se lembrar de réplicas de cenários históricos, pois bem, são dioramas, não como os da época de sua concepção, mas são. Tal invento é de Daguerre e Bouton, infelizmente com o tempo, tal espetáculo já não despertava interesses e teve seu fim declarado com um incêndio do estabelecimento em 1939.
Para sorte de Daguerre, a maior cartada de sua vida já estava indo de vento em poupa; a heliografia (fotografia) já tinha sido inventada por Niépce mais de uma década antes e este já trabalhava em parceria com Daguerre no assunto; logo após o incêndio do diorama, Daguerre levou ao conhecimento público o daguerreópico (fotografia) tornando esta invenção, enfim, famosa.

Zootrópio
Ligado ao cinema, muito se falou na “persistência retiniana”, porém não é este fenômeno que explica a sensação de movimento por várias imagens sucessivas e sim o fenômeno phi. A persistência retiniana só nos serve para excluir a visão do espaço negro entre um fotograma e outro. Mas isto só foi comprovado em 1912, sendo assim, engenhocas e concepções bizarras quanto ao assunto sempre existiram. Aristóteles acreditava que essas imagens que ficam impressas nos olhos eram retidas e nos sonhos elas voltavam para nos perturbar; Da Vinci conclui que o julgamento da visão era mais lento que a percepção visual; e Newton quase ficou cego – fazia experiência olhando para o sol e depois para um local escuro para ver no que dava – e ele não foi o único, muitos sabiamente concluíram que, se observando o sol durante um bom tempo, uma mancha negra se apresentava durante até mais de um mês na visão. Quanto às engenhocas, vale citar uma bem simples da década de 1820, o taumatrópio. No filme a Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, novamente, podemos encontrar um exemplar. O brinquedo nada mais é que um disco com duas imagens – uma na frente e outra no verso – e com duas linhas de tecido presas a dois lados opostos do disco. No caso do filme, é um pássaro de um lado e uma gaiola do outro, se girado o disco por meio das linhas, o pássaro aparece preso na gaiola. Ainda vale citar o fenaquistiscópio de Plateau, dessa vez imagens sucessivas de uma ação eram pintadas no mesmo lado de um disco, se observados através de um espelho, via-se o desenho ganhar vida. Também chamo atenção ao zootrópio (veja imagem). Pouco tempo depois, teve-se a idéia de unir um desses brinquedos ópticos à lanterna mágica, mas era tudo muito efêmero na projeção.
Durante o século XIX vemos o fim dos lanternistas ambulantes pela industrialização das lanternas e de suas placas; também vemos aparelhos que prenunciavam o cinema 3D – que já no cinema podemos ver desde Disque M para Matar de Hitchcock; há tentativas bem sucedidas de animação, embora simuladas, de fotografias, bem como o uso de centenas de lentes para se captar o movimento – o que inibia a necessidade de uma simulação; até o fim da década de 1860, os precursores do cinema já enunciavam muito do que viria. Enquanto isso, a lanterna mágica reinava em seu belo trono, a competitividade de sua venda gerava belas lanternas e placas, sendo usada por célebres personalidades como Ampère e Lewis Carrol para entretenimento de crianças.
Agora, enfim, estamos na reta final, uma reta final, diga-se de passagem, muito turbulenta. Na década de 1870 dá-se o início aos primórdios das pesquisas pela cronofotografia, o pai do cinema. Primeiro, veio Janssen que quis e conseguiu fotografar a passagem de Vênus pelo Sol em 1874, depois Muybridge. Muybridge é famoso pelo estudo do movimento animal; tudo começa com sua contratação em 1972 por Stanford, um magnata da Califórnia, para fotografar Occident, seu cavalo. Reza a lenda que Stanford fez uma aposta alegando que as patas do cavalo, em dado momento, ficavam todas suspensas no ar, para comprovar a teoria, contratou Muybridge. Dito e feito, após aperfeiçoamentos, Muybridge não só fotografou o cavalo, mas tantos outros animais e pessoas. Só vale dizer que ele usava diversas câmeras para captar os movimentos, cada uma tirando um instantâneo. Sobre a vida pessoal de Muybridge, há um fato interessante: após descobrir que sua mulher o traíra e tivera um filho – o que ele tinha pra si como filho –, tomou posso de um revólver e procurou o amante da mulher, chegando-se a este, apontou a arma para o homem e disse “Meu nome é Muybridge, e esta é a resposta da carta que você enviou à minha mulher”, então atirou, matando-o. Foi preso, mas logo solto pela influência de Stanford podendo, então, voltar ao seu trabalho.
Passado alguns anos, o cientista Marey, pesquisador do movimento fisiológico, deixaria os gráficos para se empenhar na fotografia do movimento em busca de melhores resultados, influenciado tanto por Janssen quanto por Muybridge. Contudo, este resolve usar apenas uma objetiva como Janssen e depois apenas uma chapa fixa para tirar suas fotografias – sugiro que pesquisem suas imagens. Mais tarde, movido pelas descobertas do uso de papel em vez de chapas de vidro, resolve outro problema fazendo com que a tira de papel sensível se desloque à medida que o obturador cerra-se na frente do foco da objetiva – qualquer câmera analógica até hoje é assim. Dois anos mais tarde, 1890, readaptaria sua câmera para o celulóide. Assim, de fato, o filme, a câmera e o projetor já eram criados. Só lhes restava pequenos ajustes técnicos e vontade para o cinema, enfim, torna-se realidade.

Cronofotografia de Marey
Enquanto a fotografia ligeiramente se aproximava do que seria o cinema, a pintura já chegara lá em 1888. Falamos do inventor do desenho animado, Émile Reynaud. Após inventar alguns brinquedos ópticos, eis que inventa o teatro óptico: numa tira flexível e perfurada – o que garantiria a uniformidade do movimento do filme, detalhe importantíssimo – capaz de se enrolar e desenrolar de um carretel, ele desenhava centenas de figuras em seqüência de poses; assim feito, bastava exibir por meio de uma lanterna mágica (projetor) as cenas e c’est fini, na tela era possível deslumbrar o desenho animado. De tão vanguarda que era este seu invento, até os Lumière iriam bisbilhotá-lo. E detalhe curioso: o seu espetáculo era sonoro; em determinadas passagens, tirinhas de prata acionavam eletroímãs que disparavam um sonorizador elétrico.
Thomas Alva Edison, segundo muitos americanos, inventou o cinema. De certa forma, esteve envolvido, mas não pode ter todo este mérito. Edison foi visitar Paris em 1889; lá conheceu Janssen e Marey, e foi levado a uma exposição de fotografia onde pôde ver trabalhos desses, de Nadar, Lumière e até Reynaud, obviamente, influenciado por esses trabalhos voltou à América e enfim pôde inventar o quinetógrafo (o que seria a câmera) e o quinetoscópio: uma máquina com um orifício onde se podia observar um filme; neste caso, a máquina era a tostão e de apreciação individual. Os filmes que eram exibidos podem ser vistos no YouTube, basta pesquisar. A película que Edison usava era 35 mm – um padrão no cinema -, corria horizontalmente e era perfurada. Mas este invento só sairia para o mercado tardiamente em 1894 e, tanto para pior, como sua patente era somente americana, abriu brechas para pirataria fora do país. Rendeu durante pouco tempo, mas o suficiente para pagar o preço da invenção. Curiosidade: Charles Pathé iniciou-se vendendo quinetoscópios piratas e acabou por se tornar o pioneiro na indústria cinematográfica na França.
Em 22 de Março de 1895, Louis Lumière fecha o ciclo de todos estes inventos realizando a primeira sessão cinematográfica da história. O primeiro filme exibido, La Sortie des Usines Lumiére, que pode ser visto no YouTube, não passa dos 50 segundos e retrata a saída dos operários de uma fábrica dos Lumiére. Mas é o pai destes inventores o responsável por introduzir, em Dezembro do mesmo ano, essa máquina no meio comercial do espetáculo e é também por esta via que Miliès conhecerá o cinematógrafo e tornar-se-á um dos pioneiros da ficção no cinema.
Antes de tudo acabar, é interessante dizer que os Lumière foram apenas os primeiros, porque nos Estados Unidos, em Abril de 1895, os Latham ajudados por Dickson e Lauste, dois funcionários insatisfeitos de Edison, exibiram filmes projetados por meio de pesquisas independentes das dos Lumière. E em Setembro de 1895, Armat e Jeckins exibiram os filmes de Edison com outro projetor próprio; menos de um ano mais tarde eles firmariam acordo com uma empresa que passou a comercializá-lo sob o nome de Edison. Vemos, portanto, que a indústria do cinema começa pouco virtuosa em seus interesses, é dubitável se hoje é diferente ou se infortúnios atuais não são resposta para a falta de virtuosismo do passado.
A partir de 1896 muitas câmeras com pequenas mudanças serão patenteadas e a indústria cinematográfica tomará fôlego suficiente para persistir até os dias atuais, sendo arte, entretenimento, documento e indústria.
*Por bibliografia, recomendo a bíblia sobre o assunto: A Grande Arte da Luz e da Sombra de Laurent Mannoni.

















Adoro as colunas do Pipoca! Parabéns
Essas colunas do Sun são verdadeiras aulas de história da arte.
Eu me lembro de já ter visto qualquer coisa sobre esses primeiros aparelhos. Acho que foi em alguma na TV ou em alguma coisa que li, não lembro.