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A mitologia grega representa uma rica fonte de histórias. Há milênios o homem tem contado e recontado essas lendas que são, indubitavelmente, parte da cultura mundial como um todo. Como para a arte não existem fronteiras, às vezes algumas vertentes dela se encontram e formam, para a felicidade do público, uma parceria de muito sucesso.

Mitologia Grega
por Érika Zemuner – crítica e colunista

O berço de muito do que se tem hoje em termos de valores, seja na literatura, na filosofia ou, claro, no cinema, são inquestionavelmente as lendas mitológicas. Criadas a priori para serem entoadas em rodas sociais, como é o caso de Ilíada, ou encenadas ao povo em arenas teatrais, as histórias povoadas principalmente por deuses e heróis entretêm o público há milênios de história.

Por algum motivo, nos atrai a idéia de que em algum lugar existem entidades superiores monitorando a vida terrena e controlando o destino à revelia de nossa impotente condição humana. Vale chamar a atenção para o fato de que, talvez, seja justamente esse o motivo para o sucesso e a incontrolável disseminação de tantos reality shows: o espectador tem a sensação de que do alto de sua olímpica poltrona possui, em suas mãos, o destino daqueles vulneráveis mortais. Mas isso, felizmente, já é outro assunto.

Infelizmente, toda a riqueza cultural presente nessas lendas ainda não foi devidamente explorada pelo cinema. Poucos foram os que se encorajaram a embrenhar-se pelo mundo belíssimo das lendas gregas. Porém, eles existem. É mais fácil observar citações a esses elementos na literatura, desde o aclamado Os Lusíadas, de Camões, até o fenômeno Harry Potter, de J.K. Rowling. O primeiro usa os clássicos para contar os feitos dos navegadores portugueses numa espécie de Ilíada lusitana, enquanto Rowling símbolos como a fênix e o basilisco para enriquecer sua obra e levar ao contato de crianças e jovens a história da literatura clássica.

Um dos precursores da mitologia no cinema foi o italiano Ulysses, dos diretores Mario Camerini e Mario Bava, em 1954. Como não poderia deixar de ser, o longa narra a epopéia de Ulisses (Odisseu, em grego) após a guerra de Tróia. A história, baseado no épico Odisséia, conta como foi o retorno do herói até seu reencontro com sua paciente e fiel esposa Penélope. Enquanto sua mulher precisava enganar inúmeros aspirantes a futuro marido que faziam fila em sua casa dizendo que se casaria após terminar de tecer um tapete que sempre destruía à noite, Odisseu enfrentava os perigos que o percurso sempre lhe reservava. Contando principalmente com a ajuda de Atena, o herói foi obrigado a passar por um ciclope, o próprio deus Poseidon e a ilha de Calipso antes de poder voltar ao seu palácio e matar os pretendentes de Penélope. A volta de Odisseu à ilha de Ítaca seria novamente encenada no filme A Odisséia, em 1997, comandado por Francis Ford Coppola.

Em Fúria de Titãs, que conta com o sempre ótimo Laurence Olivier e Maggie Smith no elenco – além do produtor Ray Harryhausen -, o mito da vez é o de Perseu, que, para salvar a princesa Andrômeda do monstro Kraken, precisava antes enfrentar outro desafio: conseguir a cabeça da poderosa Medusa, cuja lenda dizia que somente o olhar era suficiente para matar qualquer um que ousasse encará-la.

A Disney também se arriscou no mundo da mitologia. Em 1997, o estúdio lançaria Hércules, até hoje um dos poucos filmes da empresa que deixa de lado os contos de fada para explorar outros caminhos. Segundo o mito, Hércules, filho de Zeus e alvo do ciúme e da fúria de Hera, esposa de seu pai, encarou grandes perigos desde pequeno. Além de sofrer atentados da própria Hera, ele precisa provar que é merecedor do status de deus e realiza os famosos 12 trabalhos de Hércules, que incluíam matar o leão Neméia e capturar o cão Cérbero, guardião dos portões do inferno.

Pôster de "Tróia"

Mas, contrariando o interesse comum em deuses e heróis que normalmente existe quando o assunto é mitologia grega, eis que, em 2004, o cinema nos presenteia com Tróia e suas inúmeras discrepâncias históricas. Com um elenco formado por queridinhos como Brad Pitt no papel do protagonista Aquiles e Orlando Bloom como o destemido (no filme, claro) Páris, o longa tinha tudo para ser um clássico: uma reprodução bastante fiel dos cenários da guerra de Tróia, milhares de figurantes para realizar as batalhas e efeitos especiais realmente convincentes. Isso não foi suficiente. Apesar do enredo estar pronto há milênios, os roteiristas precisaram complicar um pouco e transformar uma história promissora em apenas mais um filme pipoca. O destino de vários personagens foi bastante modificado, como Briseida, que na verdade não era discípula do templo nenhum, e sim apenas uma escrava de guerra; Menelau, que foi precocemente morto no longa; e Helena, cuja atitude mais sensata, a de censurar Páris por este ter fugido da luta contra Aquiles, foi abstraída e substituída por juras de amor ao seu raptor. O mais lamentável nesse caso foi a simplesmente inexistência de deuses ao decorrer da história. Qualquer pessoa que se interesse minimamente por mitologia grega sabe que a influência dos deuses na guerra de Tróia é fundamental. Alguns deles ajudam os soldados gregos, outros tomam partido pelos troianos, atribuem àqueles com quem simpatizam mais poderes de última hora que muitas vezes são a diferença entre a vida e a morte, enganam e beneficiam de acordo com sua vontade. Tudo foi facilmente ignorado pelo filme, que, apesar de bom entretenimento, apenas resvalou nas nuances do épico de Homero.

Ironicamente, em um mundo predominantemente de religiões monoteístas, ainda desperta paixão nos cinéfilos a presença de deuses e símbolos mitológicos. O mais interessantes nesses personagens é que eles, diferentemente de muitos mocinhos perfeitos do cinema, têm temperamentos mutáveis, agem em muitas ocasiões como nós, humanos. Impossível é não reconhecer uma briguinha de casal quando Hera se sente insatisfeita com as atitudes de Zeus ou não se enxergar numa briga de família quando Atena se confronta com o irmão Poseidon. Ainda há muito a ser explorado nessas lendas, pois elas, assim como qualquer clássico, sempre possuem algo digno de ser aproveitado nas telas. Os deuses do cinema que sejam inspirados pelas Musas.

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8 respostas para »COLUNA: Mitologia Grega»
  1. A parte que eu mais gosto desses filmes é justamente a parte que menos é mostrada, a mitologia. ODEIO.

    Por isso gosto de Hércules, da Disney. Por isso, por causa das músicas e da Megara e do Hades que são muito engraçada.

  2. O universo de 300 também é bem explorado (ao contrário de muitos filmes) sem falar que vão fazer a sequência do filme de Zack Synder apresentando a batalha naval de Salamina e se encerra na batalha de Platéia. Gostei do texto, mas na verdade muitas franquias do universo mitológico vão surgir

  3. Ótima coluna, Érika! Sério. ^^
    Um comentário desnecessário: Eu, lendo sua coluna, enxergo “Duelo de titãs” onde tá escrito “fúria”… Aí tento associar um filme ao outro. uahushaus :X Tosco. Enfim…

  4. Realmente a mitologia é a parte mais interessante nesses tipos de filme.
    Muito boa, Érika. :)

  5. Adorei o final! “Os deuses do cinema que sejam inspirados pelas Musas.”

    Mas vou confessar: me falta um estudo melhor sobre a Antiguidade.

    :(

  6. Eu fico bolado também porque a mitologia é o que menos é explorado nesses filmes.

  7. é muito escroto

  8. tudo mentira

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