
Na coluna Anime-se desta terça, Érika Zemuner comenta como foi o processo evolutivo do papel das trilhas sonoras nas animações, destacando as maiores diferenças nas canções temas de hoje e de antigamente.
Leia!
Hey, now you’re a Rock Star!
por Érika Zemuner – crítica e colunista
Há alguns dias presenciei uma discussão interessante sobre trilhas sonoras. Nela, as pessoas deveriam escolher entre várias animações qual tinha a melhor. Entre os desenhos envolvidos estava “A Pequena Sereia”, filme lançado pela Disney em 1989. Percebi então que, exceto pelo clássico Under The Sea, não me lembrava muito bem das outras músicas. Ainda pior: o longa venceu os Oscar de Melhor Canção Original e Melhor Trilha Sonora em 1990. Para recordar um pouco sobre o filme e entender o sucesso de público e crítica, fui procurar um pouco sobre a trilha. Tamanha foi minha surpresa quando descobri que as músicas são chatíssimas! Fora a música cantada pela lagosta Sebastião, melhor amigo de Ariel, o resto é facilmente dispensável. Mesmo no original, pouca coisa se salva. Na versão dublada a coisa piora um pouco, pois a falta de rimas é surpreendente e, às vezes, irritante. Parece que os tradutores não se esforçaram muito pra encaixar palavrinhas que dessem um ritmo agradável a toda aquela cantoria ou ao menos mantivessem o compasso das canções originais. Coisa pior só a abertura do desenho “Cavalo de Fogo”, que fez muito sucesso nas décadas de 80 e 90 apesar da cantora que desafinava a todo o momento, mas passava despercebida pelas crianças.
Depois da decepção, pausa para refletir. Oras, pois os clássicos eram todos nesse estilo. As músicas eram mais do que um complemento de cena. Na verdade as antigas animações eram transformadas em verdadeiros musicais e as canções contavam parte da história do filme, revelando muito da subjetividade de cada personagem. “A Bela e a Fera” já começa com a pobre Bela cumprimentando a pequena aldeia em que não conseguia se encaixar; Ariel também canta as angústias de alguém que quer algo mais do que o mundo que conhece e ao qual sempre se sentiu presa. Não foi à toa que alguns como “Tarzan”, “A Bela e a Fera” e “O Rei Leão” viraram espetáculos na Broadway e fizeram ou fazem muito sucesso até hoje.
Outra experiência não muito boa que tive foi com “Anastasia”, que assisti muito tempo depois da minha infância. A narrativa era interrompida toda hora pra dar lugar aos solos e duetos que permeiam todo o filme, tornado ele, para mim, extremamente exaustivo e lento. Claro que o longa é bonito, tem uma história conquistadora, mas naquele momento não era o tipo de filme que eu esperava, pois meu tempo de clássicos com princesas encarnando candidatos em show de calouros já havia passado.
Deu pra entender em que ponto quero chegar? Não repudio de forma alguma os clássicos com suas trilhas emotivas e heroínas quase divas da música, afinal as primeiras animações eram assim, seguiam uma tendência que por muito tempo deu certo e que era o que o público procurava. O público, aliás, eram exclusivamente as crianças. Esse perfil mudou muito desde então. Hoje um filme como “Cinderela” com certeza não faria tanto sucesso e os adultos que fossem assisti-lo só o fariam protestando, obrigados a acompanhar seus filhos, sobrinhos e netos ao cinema. Mas o que se sabe é que o espectador das animações tem crescido conforme o gênero evolui. Alguns filmes, inclusive, são muito mais pensados nos adultos do que nas crianças. Quando se imaginou, por exemplo, numa Branca de Neve fazendo uma ponta com Immigrant Song, do Led Zeppelin, para evocar os animais da floresta como acontece em “Shrek Terceiro”? Melhor dizendo, a antiga Branca de Neve estaria, naquele momento do filme, adormecida, aguardando pelo beijo salvador de seu Príncipe Encantado, nunca na linha de frente de batalha. Ainda em Shrek, já é tradição o show no final do filme, normalmente com Burro nos vocais. Foi assim no primeiro filme com I’m A Believer, originalmente do grupo Smash Mouth, e com Livin’ La Vida Loca, música conhecida na voz de Rick Martin(!).
As trilhas sonoras nos filmes de animação continuam lá, fazendo parte do espetáculo, como não poderia deixar de ser. Mas é inegável que elas ganharam uma repaginada e se tornaram algo mais moderno dentro do gênero, não fazem mais parte da narrativa como antes acontecia. Os personagens não precisam mais contar suas próprias histórias através de canções, dando aos filmes uma característica mais dinâmica se comparados aos clássicos.
Isso não é bom, nem é ruim. Pode-se dizer que foi uma mudança necessária para que as animações se adaptassem aos novos tempos e pudessem alcançar um número maior de espectadores. Para quem gostava do antigo formato, fica a boa lembrança da infância, quando as crianças assistiam cada um desses filmes exaustivamente até decorar todas as músicas cantadas pelos personagens. E que fiquem mesmo apenas como parte de um tempo que já passou. Sinceramente, não sei se teria mais a paciência de ficar quase duas horas vendo uma mocinha cantando lamúrias de sua vida na tela. A infeliz dose de realidade ao recordar do filminho da sereia fez questão de me mostrar isso. Viva as princesas modernas e bem resolvidas que encarnam os astros do rock apenas vez ou outra,















Dos clássicos da Disney que eu lembro, a que eu acho a melhor trilha sonora é a do Corcunda de Notre-Dame, com coro de igreja cantando réquiem (eventualmente versos correspondentes às cenas), deve ser a trilha mais intensa das animações da Disney, e as canções também são bem legaizinhas.
Algumas mais que isso até, “God help the outcasts” é bonita mesmo, e a seqüência “Heaven’s light/Hellfire” é incrível (pena que alguma força dela se perdeu na adaptação da letra, embora não na interpretação da música na versão brasileira). Frollo cantando o fogo do inferno provavelmente é uma das mais sombrias e adultas canções Disney, assim como o prólogo “Bells of Notre-Dame” é um dos mais ambiciosos.
E das animações em geral, acho as melhores trilhas sonoras as do Joe Hisashi nos filmes do Hayao Miyazaki, principalmente “A Viagem de Chihiro” e “Princesa Mononoke”.
Peço desculpa, mas penso que a música I’m a believer é dos Monkeys. Dos Smash Mouth é a música de abertura Hey Now You’re a Rockstar. Ambas são óptimas, claro.